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Arte e Cultura Acreana
Walquíria Raizer*
Um martelo em uma mão e os olhos no alto. Dia claro.
Tentei explicar do que se tratava a obra. Ele ergueu as sobrancelhas e não falou nada.
Outro carpinteiro chegou e perguntou a ele. Não a mim.
- Marrapaz, pra quê isso tudo mesmo, hein?
- É o seguinte: os homem tiraram tudo o leite da seringa. E agora tão querendo botar tudo lá dentro de novo. Como não conseguem, vão deixar do lado de fora mesmo.
A cena aconteceu no Acre, durante a produção para a 27° Bienal de São
Paulo, onde um artista colombiano (Alberto Baraya) usou como molde uma
seringueira viva para a sua de látex.
A explicação do ex-seringueiro Raimundão era melhor do que a minha.
Melhor do que qualquer produtor ou curador poderia imaginar. Silêncio.
Fiquei em silêncio.
Falo disso porque é assim no Acre. Há uma certa altivez na voz. Um tom
de enfrentamento perante as questões colocadas pelo mundo.
Questionador, próprio. Identidade.
Quando o fabuloso artista Gesileu Salvatore me pediu que escrevesse um
texto sobre a cultura acreana, tremi. Cultura é muito complexa. Vai
desde os quadros do Seu Hélio (Melo), as xilogravuras do Dalmir
Ferreira, a marchetaria do Marqueson, a tia do tacacá da praça, os
poemas da Bruxinha, os mosaicos do Bab, o Jabuti-bumbá, o jeito que o
seu Zé armazena a castanha, os versos do Seu Bianor no seringal Novo
Axioma, a Regina Cláudia e o Ivan de Castela ensaiando mais uma peça, o
Grupo Teatro Vivarte subindo o rio Muru, até o carpinteiro Raimundão
pregando um andaime. Cultura é tudo o que somos.
Nos últimos tempos, vimos o restante do Brasil um pouco mais
interessado em olhar por nós. Através de nós. Curioso. Se perguntando o
que estamos vendo e por quê.
Não é pra onde. É como.
A cultura acreana é plural, fragmentada nos dias, nos pequenos grãos
que formam a farinha de Cruzeiro do sul, que é a melhor farinha de
macacheira do mundo. (O Acre é pequeno, mas enjoado.)
Nas artes temos a grandeza de um Ivan Campos. Transcendental. Danilo de
S’ Acre, Darci Seles, Pia Vila (músico no sentido de alma). Verônica
Padrão, Alexandre Nunes, André Dantas, maestro Mário Brasil e Romualdo
Medeiros, as bandas em crescente despontar Los Porongas, Camundogs,
Filomedusa, Blush Azul e Nicles.
As Casas de Cultura Maloca da Nega, Garatuja, as de Leitura da
Gameleira e Chico Mendes. Pequenas, mas afetivas. Ainda a Lene e o
Aurimar organizando a Liga de Quadrilhas de Festas Juninas. Os kênes
dos Shanenawas. As fotos da Val Fernandes, do Antônio Alcântara, da
Talita Oliveira. Os vídeos do Sílvio Margarido, do Ney Ricardo, do
Italo Rocha e Marcelo Zuza. As falas da Célia Pedrina a prosa
intergalática do Clenilson Batista, os cds do Zé Cleuber, as crônicas
da Leila Jalul. Falar no Acre é falar em nome próprio, de povo, de
gente. Identidade.
Cultura é essa familiaridade que temos com a política. Pertença.
Por mais universal que seja uma obra. Por mais que você pense que um
artista ou trabalho pudesse estar em qualquer outro lugar do mundo (e
pode), há uma maneira de olhar, a si mesmo e ao outro, diferenciada. Um
jeito sempre novo e ao mesmo tempo de enfrentamento. De orgulho até.
Martelo na mão e olhos no alto.
(...)
Ia terminar a crônica, mas fiquei olhando pro teclado e lembrando do Gesileu. Quem é e o que faz dele o que é.
Gesileu Salvatore é um artista que merece todos os adjetivos, e pro qual escolher um seria desmerecer os demais.
Sua obra é universal. Ele olha um galho de árvore caído na beira de um
rio e vê nele uma obra de arte, quase pronta. Leva pro seu ateliê, em
um bairro periférico de Rio Branco, e não sei como, consegue mostrar
pra nós, meros seres do mundo, exatamente como ele viu. E,
misteriosamente, sentimos.
Ver uma exposição do trabalho de Gesileu Salvatore é realmente repensar
quem somos. Olhar pra dentro da gente. Sentir um amor imenso pelas
curvas dos galhos. Pela floresta. Pelos seres que a habitam.
A pessoa Gesileu, é sim merecedora de sua arte. (Nem todo artista é.)
Gesileu Salvatore é afetivo e absolutamente generoso com o outro. É
capaz de deixar de apresentar um projeto pra ajudar um amigo no seu.
Quando você vê suas peças, afetivas, com sons e vozes encantadas, tenha
certeza que está vendo também o seu artista. Que é acima de tudo, um
gênio merecedor do seu talento.
*poeta, socióloga e estudante da Escola de Cinema Darcy Ribeiro.
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