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Gesileu Salvatore PDF Imprimir E-mail

oartista.jpgGesileu Salvatore é a assinatura artística de Raimundo Gesileu de Lima, nascido em 21 de julho de 1966 no Seringal Tupá, no município de Xapuri - Acre. Gesileu cedo, como toda criança seringueira, aprendeu a convivência com animais silvestres, igarapés e a natureza. Nesses caminhos, acompanhando o pai, adquire o hábito de recolher galhos, cipós e raízes, nos quais identificava, intuitivamente, possíveis formas para exercitar sua criação lúdica e estética. E passou a guardá-los em casa.


Acompanhou seus pais até a mocidade, em suas sucessivas mudanças entre seringais e cidades. Nesse período aprendeu alguns ofícios e estudou. Foi nos estudos, em função da educação artística, que se dispôs a retomar a criação de objetos colhidos na mata. A partir da década de 80 dedicou-se a aprender a técnica da escultura e a recriação com os materiais da floresta, trabalho este, que jamais quis abandonar. Nestas técnicas incluiu a investigação sobre tinturas e óleos extraídos de árvores, como a copaíba, o eucalipto e a andiroba. Descobriu  uma resina à base de castanheira, que usa para dar proteção e efeito nos seus trabalhos.


Seu atelier, qual uma oficina alquimista seringueira, é um pedaço da Amazônia, nos quais ele pesquisa, confecciona e cria máscaras e artefatos zoomorfos, ou antropomorfos, como as curiosas esculturas sonoras feitas com coités, tabocas e etc. que sopradas, batidas ou manipuladas repetem sons da mata.

Mas sua aparição pública demorou muito tempo, tempo esse de muita preparação e luta, até que assumiu, então, a condição de expor e, em 1988 realiza sua primeira exposição individual, participou de diversas exposições coletivas a partir de então, em Rio Branco, Cobija (Bolívia). Depois vai a São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Recife, Maldonado (Peru) e Brasília.


Depois vieram muitas outras mais, sempre com a marca principal da criatividade e originalidade, mas especialmente com a cara de um universo acreano, que constituem traços básicos de uma identidade em construção.


É que Gesileu, sempre proposto a redimir, tal como Krajberg, a matéria prima oferecida pela natureza, que dela retira o suporte e a própria linguagem sem, no entanto, aceitar a condição de mera cópia do natural, impondo sempre um exercício próprio, que evoca como que uma prática dos povos primitivos, que transmutavam utilitária ou artisticamente as informações naturais, processando natureza em civilização.


Sempre avesso às tendências de modas passantes, Gesileu busca na criação, seu universo singular, a partir da própria natureza que lhe fornece a matéria prima e sugere as formas que constituem, no reprocessamento desse material, a própria obra. E assim integrados, Artista, Material e Natureza, se misturam e se apresentam ao público. Uma simbiose atávica, como os prelúdios silentes que permeiam as dores do nascer.


Aqui o homem, em sua extremada dedicação, o faz embevecido como que hipnotizado pelo ato de recriar, seu pensar conduzido pela razão e a reflexão crescente, como num transe ou miração, o artista já quase não mais mão ou mente, mas transmutado, mormente parte de uma natureza a se mirar num espelho mágico que a encanta e a revifica.
   

DALMIR FERREIRA
ARTISTA PLASTICO E CURADOR